Capitães da Areia, de Jorge Amado

16 de novembro de 2018

Desde o seu lançamento, em 1937, Capitães da Areia causou escândalo: inúmeros exemplares do livro foram queimados em praça pública, por determinação do Estado Novo. Ao longo de sete décadas a narrativa não perdeu viço nem atualidade, pelo contrário: a vida urbana dos meninos pobres e infratores ganhou contornos trágicos e urgentes.
Várias gerações de brasileiros sofreram o impacto e a sedução desses meninos que moram num trapiche abandonado no areal do cais de Salvador, vivendo à margem das convenções sociais. Verdadeiro romance de formação, o livro nos torna íntimos de suas pequenas criaturas, cada uma delas com suas carências e suas ambições: do líder Pedro Bala ao religioso Pirulito, do ressentido e cruel Sem-Pernas ao aprendiz de cafetão Gato, do sensato Professor ao rústico sertanejo Volta Seca. Com a força envolvente da sua prosa, Jorge Amado nos aproxima desses garotos e nos contagia com seu intenso desejo de liberdade.
Fonte da sinopse Companhia das Letras

O livro de hoje é daqueles que nos fazem pegar uma sacola e enche-la com todos os nossos preconceitos literários, amarrar a sacola e jogar tudo pela janela! “Capitães da Areia” é um livro CLÁSSICO, é um livro NACIONAL e é um livro tão maravilhoso quanto poderia ser!

O livro, que já foi obrigatório naquelas listas de vestibular, e pode a princípio nos faz torcer o nariz e dizer: “ai, não é meu estilo de leitura”, mas se você der uma mínima chance vai perceber que é muito mais que um livro da escola modernista ou da primeira fase de escrita do Jorge Amado, e é muitas coisas além de um romance de denúncia.

“Capitães da Areia” nos traz um monte de pontos de vistas (nada confiáveis). A história de crianças de rua que moram num casarão abandonado na praia de Salvador – Bahia, nos mostra um sistema de reformatório que já não funcionava na década de 30, mostra o descaso do governo com crianças e como a sociedade como um todo as tratavam como invisíveis até que o problema batesse na porta.

“[…] E, no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da notícia. E, apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é uma pátria e uma família.”

O grupo de moleques de rua tem idades variadas, onde o mais velho tem no máximo 16 anos; eles se organizam e cometem furtos e roubos para comer; numa linha do tempo que narra esses roubos, junto com a ação do governo, ou a falta dela, a vida dos meninos vai nos sendo apresentada por meio de flashbacks que contam a história de alguns personagens específicos.

O líder do grupo é conhecido por Pedro Bala, um garoto justo, destemido e que faz de tudo pelo seu grupo; o “Professor”, um menino inteligente que sabe ler e se refugia nos livros; enquanto o “ Sem Pernas” é o que é responsável por nos levar as lágrimas com toda a crueza da narrativa de Jorge Amado, uma criança que só conheceu o desprezo e o ódio reproduzindo assim a crueldade, pois foi a única lição que aprendeu. Isso nos pesa na consciência, pois nos damos conta que mesmo passando mais de 70 anos da publicação da obra, ainda existem muitas crianças na mesma situação.

A felicidade ilumina o rosto de Pedro Bala. Para ele veio também a paz da noite. Porque agora sabe que ela brilhará para ele entre mil estrelas no céu sem igual da cidade negra.

Dora (a única garota que integra o grupo) perde os pais para uma epidemia de varíola e fica responsável pela criação do irmão menor, acaba dormindo alguns dias na praça até que é acolhida pelos Capitães da Areia e passa a ser uma espécie de mãe, irmã e amiga para os garotos; enquanto “Pirulito” sonha em seguir sua vocação religiosa; “Gato”, um garoto que tem noção de sua beleza se envolve com prostitutas mesmo sendo um menino. Eles completam um quadro de crianças que tem apenas a idade biológica, pois vivem como adultos desde muito cedo.

Mesmo não sabendo que era amor, sentiam que era bom.

Eu sei que existe uma polêmica sobre a competência de escritor do Jorge Amado, porque dizem que ele escreve de maneira simplista, porque é um Best-seller (eu nunca entendi porque fazer sucesso no Brasil é sinônimo de coisa ruim), mas enfim.

“Capitães da Areia” já foi adaptado para o cinema e contém diversas edições; eu já li esse livro algumas vezes , mas essa minha última releitura foi na edição de 2013 da Companhia das Letras (a mais completa que já li até hoje), a edição conta com um posfácio do também autor brasileiro Milton Hatoum que nos situa politicamente sobre a época de lançamento do livro (estávamos em plena ditadura militar) e a genialidade da criação do romance; tem ainda citações da Zélia Gattai (segunda esposa do Jorge Amado) que conta sobre o processo de pesquisa para o livro.

Esse é sem dúvida um livro para reler de tempos em tempos, com selo de coração quentinho e que dá orgulho de dizer: É um ótimo produto da nossa literatura.

Capitães da Areia
Autora
: Jorge Amado | Editora: Companhia das Letras
Páginas:  283 | ISBN: 9788535911695
Skoob | Goodreads
Para lerhttps://amzn.to/2DEDp8j

Ósculos e Amplexos, Karina.

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2 comentários no blog
comentários pelo Facebook

  • Reply Camila Faria 16 de novembro de 2018 at 15:02

    Oi Karina! Eu li Capitães justamente nessa época da adolescência, mas me lembro de ter gostado muito. Preciso reler, sem dúvida! Um abraço. 🙂

    • Reply Karina Carvalho 17 de novembro de 2018 at 10:25

      Oi Camila, pois é também li quando adolescente e é tão gostos reler de tempos em tempos…foi Capitães que me fez ter vontade de ler mais coisas de autoria do Jorge Amado! Um abraço e boa semana . 🙂

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