Fome, de Roxane Gay

9 de março de 2018

Fome

Desde que soube que a Globo Livros ia lançar o livro Fome, da Roxane Gay, fiquei muito empolgada porque era uma leitura que eu queria muito fazer. Para quem ainda não sabe tenho um projeto de ler todos os livros participantes do clube do livro organizado pela atriz Emma Watson, o Our Shared Shelf. Já contei sobre ele nesse post. Então aproveitei para pedir o livro pela parceria com a editora.

Nesta autobiografia escrita com sinceridade impressionante, a autora best-seller Roxane Gay fala sobre como, após sofrer um abuso sexual aos doze anos, passou a utilizar seu próprio corpo como um esconderijo contra os seus piores medos. Ao comer compulsivamente para afastar os olhares alheios, por anos Roxane guardou sua história apenas para si. Até conceber este livro. Esta não é uma narrativa bem-sucedida de perda de peso. E este também não é um livro que Roxane gostaria de escrever. Entretanto, é uma história que precisa ser contada, e ela o faz com seu estilo contundente e impetuoso, ainda que dotado de um humor mordaz, características que a tornaram uma das vozes mais marcantes de sua geração. Fome é um relato ousado, doloroso e arrebatador.
Fonte: Globo Livros

Roxane Gay é escritora, palestrante, editora e professora de escrita criativa. Já publicou vários livros, entre eles, Má feminista.

Quando eu tinha doze anos, fui estuprada e depois comi, comi, comi e comi para transformar o meu corpo numa fortaleza. Virei uma pessoa problemática e depois cresci e me afastei daquele dia terrível e me tornei uma pessoa problemática diferente – uma mulher fazendo o melhor que pode para amar bem e ser bem-amada, viver bem e ser humana boa. (GAY, p.267).

Comecei a ler a obra em janeiro e foi uma leitura rápida. Me pareceu ler um diário, sabe! Acredito que ele foi escrito com essa intenção. É como se a autora precisasse jogar para fora todos os sentimentos e incômodos e problemas que ela possui pelo fato de ser uma pessoa gorda e o quanto isso molda a sua trajetória pelo mundo. É um raio-x de como é a vida de uma pessoa gorda: os problemas enfrentados por estar fora de um “padrão estabelecido”, as dores que o corpo possui por conta do sobrepeso, a falta de vida social simplesmente porque  os espaços não está preparados ou foram pensados para receber pessoas gordas ou  com pouca mobilidade.

Esta é a realidade de viver no mu corpo: estou presa numa jaula. O frustrante das jaulas é que você está presa, mas consegue enxergar exatamente o que quer. Você pode estender o braço para fora da jaula, mas só até determinado ponto (GAY, p.23)

No livro ela relata diversos tópicos pelos quais a autora precisa viver na sua rotina. Ela fala sobre sua baixa auto-estima que a acompanha desde antes mesmo do estupro e por isso ter desenvolvido uma aversão ao mundo e as pessoas porque achava que não merecia ser desejada. A barreira que ela teve que construir mentalmente e fisicamente (o peso) para que ela não tivesse que se sentir tão vulnerável e exposta quanto na época que ocorreu o estupro. Além disso ela nos relata sobre as dificuldades que enfrenta em coisas que podem parecer banais para pessoas que estão “dentro do peso” mas que para ela são torturantes, como ir na academia ou comprar roupas. As diversas experiências com dietas que já experimentou, os problemas enfrentados por simplesmente comprar uma passagem aérea e fazer um voo sentindo os olhares de reprovação por estar ocupando 2 poltronas, mesmo tendo paga pelas duas. É bem chocante e necessário, mas nos faz pensar em como somos cruéis com o outro. Às vezes nos pequenos gestos do dia a  dia.

Mesmo tendo gostado muito da leitura e de ter visto como o livro aborda questões essenciais sobre pessoas gordas e/ou que vivenciaram um trauma, tem alguns pontos do livro que me desagradaram. O livro poderia ter sido mais direto, mais objetivo. Em alguns momentos sinto que a autora dava muitos rodeios e repetia demais certos aspectos, o que tornava a leitura maçante e parecia que não ia chegar a lugar algum. De certa forma, essa questão eu até consigo compreender, porque deve ser bem complicado escrever sobre algo que dói tanto e mexe com tantos sentimentos que já é uma enorme vitória conseguir colocar no papel. Por isso é tão complicado exigirmos objetividade nessa hora.

Hoje sei que estava errada na época, que meus pais teriam me apoiado, ajudado e buscado a justiça por mim. Eles teriam me mostrado que não era eu que tinha de sentir vergonha. Infelizmente, meu silêncio amedrontado não pode ser defeito. (GAY, p. 46)

Uma das coisas que mas me fizeram pensar nesse livro foi como somos pessoas perdidas na adolescência. Como temos medo do mundo e como nos sentimos tão sozinhos. Roxane Gay era uma garota normal, no início da adolescência, cheia de medos e anseios, confusa e . Ela é de uma família amorosa e de boa condição financeira e mesmo assim na época do crime ela se sentiu sozinha, achando que aquilo era culpa dela, que tinha medo de se encrencar. Isso tudo me fez pensar o quanto devemos demostrar aos nossos (futuros) filhos o quanto são amados e o quando podem confiar e contar conosco, que não é preciso ter medo. A família de Gay é uma família que fez isso por seus filhos, mas talvez, não sei, faltou um pouquinho mais e por isso Roxane teve medo de revelar. Eu não sei, posso estar especulando, mas tive essa impressão ao ler o livro. Mas a culpa sempre nos cega.

Fome é um pequeno tapa na cara da sociedade que não compreende a realidade das pessoas gordas. Depois dessa leitura tenho uma pequeníssima noção das dificuldades e medos que elas possuem.

Fome: uma (auto) biografia do meu corpo
Autor: Roxane Gay | Editora: Globo Livros
Páginas: 288 | ISBN: 9788525064752
SkoobGoodreads
Para ler: Amazon

Vocês já conheciam o livro? Já leram? Quero saber o que vocês acharam e discutirmos sobre ele nos comentários.


Mil beijos e até mais!

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2 comentários no blog
comentários pelo Facebook

  • Reply Camila Faria 14 de março de 2018 at 16:57

    Oi Karin, o livro me pareceu ser bem forte e interessante. Uma pena ele ser repetitivo demais, mas fiquei curiosa para ler mesmo assim. Um abraço!

    • Reply Karin Paredes 12 de abril de 2018 at 12:56

      Oi Camila!
      É um livro intenso… mas muito cru ao retratar a vida de uma pessoa que é obesa mórbida!

      Não há uma linearidade na sua escrita. Ela repetia algumas coisas e partes, mas acho que fazia parte do processo! Por isso se tornou um pouco cansativo! Mas vale a pena a leitura!

      Mil beijos

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